Um clássico que parou o Rio de Janeiro
Existem jogos, e existem jogos que entram para a alma do torcedor. O dia 12 de setembro de 1999 é um desses. Quem esteve no Maracanã naquela tarde chuvosa, ou quem acompanhou pelo rádio, jamais esquecerá. Eram 82.079 almas testemunhando um Clássico dos Milhões que valia muito mais que três pontos: valia a liderança do Brasileirão e a honra de um confronto histórico.
O cenário era de guerra. De um lado, o nosso Vascão, com 25 pontos. Do outro, o rival, com os mesmos 25 pontos. A chuva que caía sem piedade no Rio de Janeiro deixava o gramado pesado, um teste de fogo para a técnica e a raça. Para eles, havia ainda o peso de um tabu insuportável: sete anos sem conseguir vencer o Gigante da Colina pelo Campeonato Brasileiro. A pressão estava toda do lado de lá.
Vasco é consciência, dentro e fora de campo
Antes mesmo de a bola rolar, o Almirante já mostrava por que é um clube diferente. Entramos em campo com camisas em apoio ao povo do Timor Leste, que vivia uma crise humanitária terrível. Enquanto outros só pensam na bola, o Vasco sempre teve lado na história. E a nossa torcida, como sempre, deu o recado nas arquibancadas.
Uma faixa gigante mandava um recado direto ao então presidente Fernando Henrique Cardoso e, de quebra, provocava o atacante Romário, chamado de “puxa-saco” por seu apoio ao governo. Era o nosso jeito de dizer: aqui é o time do povo, aqui a gente não se cala. O clima de “nós contra o mundo” estava armado.
Muralhas debaixo das traves
Com a bola rolando, o que se viu foi um duelo tático, nervoso, digno de uma final. O time deles, comandado por Carlinhos, apostava tudo em Romário e na correria de Beto. O nosso, sob a batuta do mestre Antônio Lopes, confiava na força de um elenco campeão da América, com a genialidade de Edmundo e a velocidade de Donizete Pantera.
O gramado escorregadio dificultava as coisas. O primeiro tempo foi amarrado, de muito estudo e poucas chances. Mas na segunda etapa, o jogo abriu. E foi aí que nossos heróis começaram a aparecer. O rival teve chances claras. Beto, inacreditavelmente, perdeu um gol feito na pequena área. E Romário, o “Baixinho”, tentou de tudo. Em uma de suas jogadas características, um chute de bico, a bola tinha endereço certo. Mas no nosso gol estava CARLOS GERMANO.
O nosso paredão fez uma partida antológica. Germano parou o ataque rival com defesas seguras, mostrando a tranquilidade de quem sabe o peso da camisa que veste. Do outro lado, Clemer também trabalhava, segurando as investidas do Animal Edmundo em cobranças de falta e cruzamentos venenosos. O 0 a 0 parecia teimar em ficar no placar.
Aos 40 do segundo tempo, a explosão Cruzmaltina!
O tempo passava, o empate parecia inevitável. Muitos já se conformavam com a divisão de pontos naquele dilúvio. Mas o Vasco é o time da virada, da superação, da fé até o último segundo. E o destino reservou um momento de glória eterna para um jovem pernambucano que estava prestes a se tornar realeza em São Januário.
Minuto 40 do segundo tempo. Oitenta e cinco minutos de batalha. Um lançamento longo encontra Donizete Pantera pela direita. Na pura força física, ele ganha do marcador, vai à linha de fundo e cruza rasteiro, uma bola que atravessa toda a pequena área, cheia de veneno. O lado rubro-negro da arquibancada prendeu a respiração.
E então, como um raio, surgindo livre de marcação, apareceu ele: JUNINHO PERNAMBUCANO. Com a tranquilidade dos predestinados, ele só teve o trabalho de escorar para o fundo da rede. GOL! GOL DO GIGANTE DA COLINA!
O que se seguiu foi uma cena para a eternidade. O silêncio sepulcral do lado rival e a explosão de uma nação inteira que vestia preto e branco. Com aquele 1 a 0, não apenas assumimos a liderança isolada do campeonato, mas reafirmamos nossa paternidade. O tabu de sete anos continuava. Naquele dia, sob chuva, Juninho não fez apenas um gol. Ele escreveu um dos capítulos mais bonitos da nossa história. E você, torcedor, onde estava nesse dia inesquecível?
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.