A conta que dói na alma do torcedor
Tem coisas que só acontecem com o Vasco da Gama. Mas tem outras que nós mesmos provocamos. E dói, torcedor, como dói admitir isso. Um levantamento, daqueles que a gente preferia não ver, escancara a realidade nua e crua da nossa campanha no Campeonato Brasileiro: não é só azar, não é só o juiz. Somos, em muitos momentos, nosso próprio carrasco.
A matemática é fria e impiedosa. Erros individuais, falhas grotescas, vacilos que não podem acontecer em um time profissional, nos custaram a bagatela de 32 pontos na competição. Sim, você leu direito. Trinta e dois pontos jogados no lixo. Pontos que hoje nos tirariam dessa agonia da 17ª colocação, com míseros 30 pontos e apenas cinco vitórias em 19 rodadas.
Estaríamos brigando por algo a mais? Com certeza. Mas a realidade é o Z4, é a briga para não cair, é o sofrimento que parece não ter fim. E tudo isso por causa de uma sucessão de presentes que distribuímos generosamente aos nossos adversários. Vamos relembrar, com a dor que nos é peculiar, cada um desses momentos que nos afundaram.
O filme de terror: jogo a jogo, as falhas que nos mataram
Não é um ou dois casos isolados. É um padrão, uma doença que parece ter contaminado o elenco. A análise considera apenas os jogos em que empatamos ou perdemos, e o resultado é de revirar o estômago. Prepara o coração, fiel do Gigante, porque a lista é longa.
- Vitória 1 x 0 Vasco (19ª rodada): A mais recente. Uma bola que deveria ser de rotina na saída de defesa. Léo Jardim toca, Robert Renan aciona Kauan Barros. O nosso volante, de costas, dorme no ponto. Demora uma eternidade para decidir o que fazer e é desarmado por Renato Kayzer na entrada da área. Gol deles. Fim de papo. Um ponto que era nosso, virou zero.
- Vasco 0 x 3 Bragantino (17ª rodada): Uma noite para esquecer em São Januário. Primeiro, Lucas Piton tenta cortar um lançamento de cabeça e entrega a bola de bandeja para o contra-ataque do adversário. Gol do Rodriguinho. A torcida, com razão, não perdoou e vaiou o lateral na substituição. Para fechar o caixão, Saldívia tenta um recuo para Léo Jardim e dá um passe tão fraco que Fernando intercepta e marca o terceiro. Uma humilhação em casa.
- Internacional 4 x 1 Vasco (16ª rodada): Outra goleada sofrida com a nossa colaboração. Léo Jardim tenta sair jogando com os pés, erra o passe e entrega nos pés de Carbonero. A jogada termina com gol de Alerrandro. Depois, é a vez de Tchê Tchê se atrapalhar todo no campo de defesa, tentar um recuo e dar a bola para Bernabei. Mais uma jogada que termina com a bola no fundo da nossa rede. Entregar a paçoca virou rotina.
Presentes para rivais e empates com gosto de derrota
Se entregar pontos para times de menor expressão já é doloroso, imagine fazer isso em clássicos ou em jogos que estavam ganhos. O Vascão parece especialista em se sabotar nos piores momentos possíveis.
Vamos aos fatos que a gente tenta, mas não consegue esquecer:
- Flamengo 2 x 2 Vasco (14ª rodada): Ah, o Clássico dos Milhões… Aos 14 do segundo tempo, Paulo Henrique comete um pênalti que só pode ser descrito como “infantil”. Um pisão no pé de Pedro, que já estava quase sem ângulo. VAR chamou, o juiz deu. Gol deles. Dois pontos que voaram pela janela no jogo mais importante do Rio. Dar um presente desses para o maior rival é imperdoável.
- Coritiba 1 x 1 Vasco (9ª rodada): Estávamos com a vitória na mão. Três pontos garantidos fora de casa. Relógio marcando 44 minutos do segundo tempo. O que acontece? Gol contra de cabeça do Saldívia. Um balde de água fria, um soco no estômago. De três pontos, ficamos com um.
- Cruzeiro 3 x 3 Vasco (6ª rodada): Vencíamos por 2 a 1, jogando bem. Aos 14 do segundo tempo, Kauan Barros dá um pisão em Matheus Pereira e é expulso. Com um a menos, o time do povo não aguentou a pressão. Sofremos o empate em um jogo que estava sob controle. Uma expulsão irresponsável que custou a vitória.
O início do pesadelo: falhas desde a primeira rodada
O problema não é de agora. A sangria começou desde o apito inicial do campeonato e nunca foi estancada. A repetição dos mesmos tipos de erros é o que mais assusta a torcida vascaína.
A lista de horrores continua:
- Santos 2 x 1 Vasco (4ª rodada): Uma confusão digna de comédia pastelão. Saldívia e Paulo Henrique se atrapalham para afastar uma bola aérea, gerando um contra-ataque mortal que terminou com gol de Neymar. Falta de comunicação, falta de tudo.
- Mirassol 2 x 1 Vasco (1ª rodada): O campeonato mal começou e a gente já estava distribuindo gentilezas. Primeiro, um gol contra de Carlos Cuesta para empatar o jogo. Logo depois, Lucas Piton erra na saída de bola e entrega o gol da virada para Eduardo. Começamos o Brasileirão perdendo para nós mesmos.
- Remo 1 x 1 Vasco (11ª rodada): A desatenção defensiva em sua forma mais pura. Cobrança de falta para o Remo, de longe. Marllon aparece completamente livre, sozinho, dentro da nossa pequena área, para cabecear sem qualquer marcação. Onde estava a nossa zaga? Um gol que resume a falta de concentração que assola o Gigante.
Até quando, Gigante da Colina?
Esses 32 pontos não voltam mais. Estão na conta dos adversários. O que nos resta é olhar para essa lista vergonhosa e entender que a luta contra o rebaixamento passa, antes de mais nada, por uma luta contra nossos próprios erros. Não podemos mais ser um time que se sabota. É preciso ter vergonha na cara, vestir essa camisa com a raça que ela exige e parar de entregar o ouro para o bandido.
A pergunta que fica ecoando na cabeça de cada vascaíno é: até quando vamos ser nosso maior adversário? A torcida, como sempre, fará sua parte. Mas está na hora dos jogadores fazerem a deles. Vasco é coisa séria.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.