Aquele calafrio na espinha que todo vascaíno conhece
Quatro minutos de jogo. Você mal se ajeitou no sofá, o coração ainda na expectativa daquele jogo decisivo de Sul-Americana, e de repente… o balde de água fria. Um erro na saída de bola, uma falha que parecia inacreditável, e o Gigante da Colina já começava perdendo. Aquele silêncio que precede o xingamento, a mão na cabeça, o pensamento de ‘de novo não’. Sim, foi assim que nossa jornada contra o Audax Italiano começou no Chile. Um pesadelo.
A imagem do goleiro Fuzato e do zagueiro Saldivia envolvidos no lance rodou a internet e o desespero tomou conta de muitos. Parecia mais uma daquelas noites em que tudo dá errado. Mas, na coletiva após a virada heroica, o homem que comandava o Vascão na beira do campo, Marcelo Salles (substituindo o suspenso Renato Gaúcho), trouxe uma outra perspectiva. E a explicação dele faz todo o sentido para quem entende de futebol de verdade.
Gramado Sintético: O verdadeiro vilão da história?
Para Marcelo Salles, o buraco era mais embaixo. Ou melhor, o gramado era o problema. O auxiliar técnico não fugiu da raia e apontou o dedo para as condições do campo sintético do Estádio Bicentenario La Florida. Segundo ele, aquilo foi determinante para o começo desastroso do nosso time.
“Foi um fator que fez com que a gente sofresse o gol no início do jogo. Tenho certeza que se o gramado fosse diferente, o nosso início de jogo seria também diferente”, cravou Salles, sem meias palavras. Ele descreveu o cenário: um gramado sintético, molhado por causa do sereno e um frio cortante. É quase outro esporte! Não é o Caldeirão de São Januário, não é a nossa casa, não é futebol raiz.
E ele foi além, com uma crítica que nós, torcedores, fazemos há tempos. “As equipes que jogam no gramado sintético têm vantagem. A gente deveria trabalhar em igualdade de condições”, desabafou. É uma covardia! O time da casa treina e joga a vida inteira naquele tapete de plástico, sabem onde a bola quica, a velocidade que ela pega. Enquanto isso, nosso time, acostumado com a grama natural, sagrada, precisa de um tempo para se adaptar. Tempo que, muitas vezes, custa um gol, como custou para nós.
A bronca no vestiário que acordou o Gigante
Apesar do golpe inicial, o Vasco é o time da virada. E essa virada começou no intervalo. O que foi dito naquele vestiário? Marcelo Salles revelou que a conversa foi reta e direta. Nada de fórmula mágica, mas um choque de realidade.
“A gente sabia que aquele primeiro tempo não era o que o Vasco está acostumado a fazer. Tínhamos condições de fazer um jogo muito melhor do que fizemos no primeiro tempo. Foi isso que eu basicamente disse para eles”, contou o auxiliar. Foi um chamado à responsabilidade. Um lembrete de que aquela camisa preta com a faixa diagonal pesa uma tonelada e exige honra, coragem e personalidade.
E a resposta veio em campo. O time voltou diferente, com a faca nos dentes. Como Salles mesmo disse: “Eles entenderam, a gente trouxe isso no segundo tempo, e aí vocês viram o que aconteceu”. Vimos sim, Marcelo. Vimos a raça vascaína que tanto nos orgulha. Vimos um time que não se entrega e que foi buscar uma virada épica fora de casa, contra tudo e contra todos.
Saldivia tem moral: Aqui a gente não queima jogador!
Em meio à euforia da vitória, Marcelo Salles fez questão de dar um recado importante, principalmente para a torcida mais apressada. Ele saiu em defesa do zagueiro Saldivia, um dos envolvidos no lance do gol adversário. E não foi uma defesa qualquer, foi uma declaração de confiança.
“O Saldivia é um jogador que a gente gosta muito. É um atleta que vem ganhando minutos cada vez mais na equipe do Renato, um atleta que tem total confiança”, afirmou Salles. Mais do que isso, ele revelou que Saldivia foi o capitão da equipe na partida. “Hoje foi nosso capitão, foi um dos nossos líderes dentro de campo, organizou a equipe”.
Essa atitude mostra a força do nosso grupo. Erros acontecem, especialmente em condições adversas como as que o time enfrentou. O importante é como o grupo reage. Apontar o dedo e queimar um jogador é fácil, é o caminho dos fracos. Apoiar, dar confiança e reconhecer o valor do atleta é o que faz um time campeão. Saldivia tem a confiança da comissão, e isso basta. Que sirva de lição. Aqui no Vasco, o time do povo, a gente luta junto e se levanta junto.
A vitória no Chile foi muito mais do que três pontos na Sul-Americana. Foi uma demonstração de caráter, de superação e de união. Uma vitória contra o adversário e contra as circunstâncias. E com um comandante, mesmo que interino, que soube ler o jogo, ajustar a rota e, principalmente, defender seu elenco. Seguimos, Gigante!
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.