Em um futebol cada vez mais distante do povo, um gesto de humanidade nos lembra por que o Vasco é diferente. Hugo Moura, o herói improvável que nos deu o empate aos 90 minutos contra o nosso maior rival, mostrou que sua grandeza não se limita às quatro linhas. Ele foi um gigante.
O nosso volante fez mais do que um gol no último domingo. Nesta semana, ele marcou um golaço de empatia e solidariedade ao visitar Arthur Cortines Laxe, um jovem vascaíno de apenas 18 anos, cuja vida foi brutalmente alterada na saída do mesmo clássico que nos fez vibrar.
Um Gesto de Gigante em Meio ao Caos
Enquanto muitos de nós ainda comemorávamos o empate heroico, a família de Arthur vivia o início de um pesadelo. E foi em meio a essa dor que Hugo Moura, por conta própria, entrou em contato com a família e foi até a Casa de Saúde São José, no Humaitá, para oferecer seu apoio.
Não era uma obrigação, não era marketing. Foi a atitude de um cara que entende o que a nossa camisa representa. Ele, que nos deu um motivo para sorrir no apagar das luzes, foi levar um pouco de conforto para quem teve a sua luz tragicamente apagada pela violência. Isso é ser Vasco. É entender que a nossa torcida é o nosso maior patrimônio.
O Relato da Covardia: “Ganha o Teu”
A história de Arthur é de revirar o estômago e um retrato da covardia. O jovem, torcedor como eu e você, estava apenas tentando voltar para casa. Ele e seus amigos contornavam o Maracanã em direção ao metrô, na altura da Uerj, quando uma confusão entre organizadas começou. Detalhe importante, dito pelo próprio Arthur: ele não participava da briga.
Foi quando o terror se materializou. “Quando virei pra trás, ouvi os cavalos e já tomei um tiro na cara”, relatou o estudante. Um tiro de bala de borracha, disparado por um policial militar, que o atingiu no rosto e tirou para sempre a visão de seu olho direito.
O que se segue é ainda mais revoltante. Sangrando, desesperado, Arthur buscou ajuda justamente em quem deveria protegê-lo. “Eu estava gritando por socorro e o cara falou: ‘sai daqui, se vira’. Outro ainda disse: ‘ganha o teu’”, contou o jovem. A mãe, Christiane Cortines, complementa o horror: “O policial teve a coragem de falar pra ele: ‘cara, vai embora o que tu está fazendo aqui. Vai embora’”.
O socorro não veio da polícia. Veio de um taxista, um anônimo com mais humanidade que agentes do Estado. É inadmissível.
A Batalha Agora é Outra: Por Justiça
Arthur perdeu a visão do olho direito. A família estima que ele precisará passar por, no mínimo, três cirurgias, incluindo uma plástica e outra para corrigir uma fratura no nariz. A vida de um garoto de 18 anos foi alterada para sempre por um ato de despreparo e brutalidade.
A família, com toda a razão, cobra por justiça. “Quero uma indenização, sim, por direito, por tudo que meu filho está passando. É mais do que justo isso. É inadmissível uma pessoa sair de casa para assistir a um jogo e voltar sem a visão”, desabafou a mãe. A Polícia Militar, por sua vez, confirmou que um homem foi ferido por “disparo de elastômero” e que um procedimento foi instaurado para apurar o caso. Palavras frias para uma tragédia imensa.
Um Clássico Marcado pela Violência
O caso de Arthur, infelizmente, não foi isolado. Aquele domingo foi um show de horrores no entorno do Maracanã. A PM, que mobilizou cerca de 800 agentes, efetuou 15 prisões. Além do nosso jovem torcedor, outras duas pessoas ficaram gravemente feridas em espancamentos.
Um torcedor do Flamengo e outro do Vasco, identificado como Hiata André Barbosa, foram espancados a ponto de ficarem desacordados. Ambos foram levados para o Hospital Municipal Souza Aguiar e seguem internados em estado estável. É um cenário de guerra que mancha a paixão pelo futebol.
Em meio a tanta dor e revolta, o gesto do nosso jogador, Hugo Moura, surge como um pequeno farol na escuridão. Ele nos lembra que, por trás das camisas e das rivalidades, existem pessoas. Que a atitude dele sirva de exemplo. E que a justiça para Arthur seja tão implacável quanto o chute que nos deu o empate. Força, Arthur. O povo cruzmaltino está com você.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.