Enquanto o Gigante Procura um Técnico, o Elenco se Desfaz
A torcida vascaína vive um eterno déjà vu de agonia. Enquanto as notícias sobre o novo comandante do Vascão se arrastam como novela mexicana, um problema silencioso e igualmente perigoso cresce dentro de São Januário. A diretoria, perdida em sua busca por um treinador, parece ter esquecido do básico: cuidar do seu próprio patrimônio. Quatro atletas do nosso elenco já estão com o cronômetro zerado e, a partir deste mês de julho, podem assinar um pré-contrato com qualquer outro clube e sair de graça no fim do ano. Um presente de grego que o Vasco, mais uma vez, parece disposto a dar.
Os nomes da barca? Daniel Fuzato, Pablo, Hugo Moura e Tchê Tchê. Sim, você leu certo. Jogadores que, com mais ou menos importância, compõem o grupo que luta para tirar o Almirante dessa situação. E a postura do clube? Silêncio total. Nenhuma proposta de renovação, nenhuma conversa, nenhum sinal de que o Gigante da Colina pretende manter seus jogadores. É o retrato de uma gestão que apaga um incêndio com gasolina, focada em um problema (o técnico) enquanto outros focos de crise explodem ao redor.
A Regra é Clara: O Mercado Não Perdoa
Para o torcedor menos familiarizado com as burocracias do futebol, a regra da Fifa é simples e mortal. Quando um jogador entra nos últimos seis meses de seu contrato, ele se torna dono do próprio passe para o futuro. Pode negociar livremente com qualquer interessado, assinar um pré-acordo e, ao final do vínculo atual, simplesmente arrumar as malas e ir embora, sem que o clube formador ou atual receba um único centavo de compensação. É a promoção que todo clube rival adora.
E é exatamente nessa liquidação que o nosso Vascão colocou quatro de seus ativos. A inércia é assustadora. A desculpa, como sempre, será a de que a “próxima comissão técnica” precisará avaliar os nomes. Mas até lá, o estrago pode já estar feito. Um jogador com um pré-contrato assinado na gaveta joga com que cabeça? Com que comprometimento? É uma situação que cria instabilidade e abre as portas para o adeus.
Meio-Campo Carente e a Tentação do Mercado
O caso mais crítico é o do nosso meio-campo. Hugo Moura e Tchê Tchê, peças que, goste ou não a torcida, são constantemente utilizadas, estão com um pé fora do clube. O mais irônico? A própria diretoria admite que o elenco carece de opções para o setor e, por isso, segura a saída imediata deles na janela de transferências. Ou seja: o clube sabe que precisa deles, mas não se mexe para garantir a permanência a longo prazo. É uma lógica que desafia a inteligência.
A informação que chega é que o mercado já farejou o sangue. Tchê Tchê, um jogador experiente e com rodagem, já foi procurado por pelo menos dois clubes da Série A. Hugo Moura, por sua vez, recebeu uma proposta concreta do futebol japonês. Por enquanto, as conversas não avançaram, mas a porta está escancarada. A instabilidade jurídica, com o imbróglio envolvendo Pedrinho e o comando da SAF, só joga mais lenha na fogueira, paralisando qualquer movimento mais estratégico do clube.
Fim da Linha para os Goleiros?
Se a situação dos volantes é de uma necessidade não correspondida, a dos goleiros parece ser de um fim de ciclo anunciado. Daniel Fuzato, contratado em janeiro do ano passado para ser a sombra de Léo Jardim, nunca se firmou. Pelo contrário. Nas poucas oportunidades que teve – somando apenas oito partidas em duas temporadas – colecionou atuações inseguras que deixaram a torcida de cabelo em pé. A tendência clara é que ele encerre sua passagem discreta pelo clube ao final do contrato, sem deixar saudades.
Já o caso de Pablo é mais um daqueles que dói na alma do torcedor cruzmaltino. Cria da base, o goleiro de 23 anos viu sua carreira no time principal se resumir a uma única partida. De promessa a esquecido, o jovem arqueiro não entrou em campo este ano e parece destinado a procurar novos ares para tentar a sorte. É a repetição de um roteiro triste, onde o Vasco revela, mas não aproveita, vendo seu talento se esvair por falta de oportunidades e planejamento. A tendência, por ora, é que também não haja renovação.
Até Quando, Vasco?
A lista de quatro jogadores livres para negociar é um sintoma grave da doença que aflige o Vasco: a falta de gestão. Em meio a uma crise técnica e política, o clube se dá ao luxo de negligenciar seu maior ativo, os jogadores. Perder atletas de graça é um luxo que nem os clubes mais ricos do mundo podem ter, quanto mais o nosso Gigante, que luta a cada dia para se reerguer. A torcida, como sempre, assiste a tudo com o coração na mão, esperando que alguém, em algum lugar daquela diretoria, acorde antes que seja tarde demais. Mas a cada dia que passa, a esperança se mistura com a mais pura e vascaína resignação.