‘Final de Copa do Mundo? Grande coisa! Vasco x Flamengo é muito maior’
Tem coisas que só quem é Vasco entende. A paixão, a história, o peso da Cruz de Malta. E poucas frases definem tanto esse sentimento quanto a do lendário Ademir Menezes, o ‘Queixada’. Em uma entrevista ao Jornal dos Sports em 12 de junho de 1976, o ídolo foi questionado sobre a pressão de uma final de Copa do Mundo. A resposta dele deveria ser emoldurada em São Januário: “Eu posso falar, pois já participei das duas. Ninguém consegue dormir direito… Com a bola rolando, acaba a tensão e o jogador só escuta os gritos das torcidas, que fazem uma partida extra, nas arquibancadas”. Para Ademir, a tensão e a glória de um Clássico dos Milhões decisivo superavam até mesmo a final do maior torneio do planeta. Isso é ser Vasco!
Essa mentalidade de gigante explica como um homem anotou incríveis 301 gols em 429 jogos com a nossa camisa. Ademir não foi apenas um jogador; ele foi a alma do Expresso da Vitória, o período mais glorioso da nossa história. E sua lenda, como bem disse o cronista Armando Nogueira, precisaria de um domingo inteiro para ser contada.
O dia em que o Vasco FOI a Seleção Brasileira
Para a molecada mais nova que talvez não saiba, houve um tempo em que a Seleção Brasileira era, basicamente, o Vasco da Gama. E o maior palco disso foi a Copa do Mundo de 1950. No dia 9 de julho daquele ano, o Brasil aplicou a sua maior goleada na história dos Mundiais: um sonoro 7 a 1 sobre a Suécia, no Maracanã.
E aqui vem o detalhe que enche de orgulho o peito de qualquer vascaíno: TODOS os sete gols foram marcados por jogadores do Gigante da Colina! Foi um show particular do nosso esquadrão. Ademir ‘Queixada’ Menezes, o artilheiro daquela Copa com 9 gols (um recorde para brasileiros que dura até hoje!), marcou quatro vezes. O massacre foi completado por Chico, que guardou dois, e Maneca, com mais um. O Brasil vestia amarelo, mas o coração que goleava era cruzmaltino.
A contratação que nasceu de uma ‘vingança’
A história de Ademir com o Vascão começou de um jeito curioso: ele nos destruiu em campo. Nascido em Recife e revelado pelo Sport, o atacante veio ao Rio de Janeiro em 1942 para uma excursão com o time pernambucano. O adversário? O Vasco.
Naquele jogo, o rapaz franzino e de queixo proeminente, que lhe renderia o apelido de ‘Queixada’, fez o diabo. Marcou três gols e deu uma assistência na vitória do Sport por 5 a 4. A diretoria do Almirante, em vez de lamentar a derrota, teve uma visão de gênio. Ficaram tão impressionados que não pensaram duas vezes: contrataram o seu próprio carrasco. Mal sabiam eles que estavam trazendo para São Januário não apenas um jogador, mas um dos maiores ídolos da nossa história.
‘Queixada’: a máquina de gols do Expresso da Vitória
Com Ademir em campo, o Vasco se tornou imparável. Ele foi a grande estrela do Expresso da Vitória, o time que atropelou adversários e empilhou taças. Foram 15 títulos conquistados em suas duas passagens pelo clube, de 1942 a 1945 e de 1948 a 1956. Uma era de domínio absoluto.
Dizem que suas arrancadas fulminantes e sua inteligência tática criaram a posição de ‘ponta de lança’. Ele não era um centroavante fixo nem um meia clássico. Ele era Ademir, uma força da natureza que obrigava os adversários a mudarem seus esquemas táticos só para tentar contê-lo. Geralmente, sem sucesso. Os 301 gols pelo Gigante da Colina são a prova matemática de sua genialidade.
O terror dos rivais: nem Fla, nem Flu, nem Bota paravam a lenda
Se tem algo que o torcedor vascaíno gosta, é de ter vantagem sobre os rivais. E Ademir Menezes era o nosso maior trunfo nos clássicos. Os números, levantados pelo portal ‘EstudeVasco’, são uma covardia. Contra Flamengo, Fluminense e Botafogo, ‘Queixada’ era simplesmente implacável.
Em 111 jogos contra os três principais rivais, ele teve 96 participações diretas em gols. Foram 68 gols marcados e 28 assistências. É quase uma participação por jogo! Ele não apenas vencia, ele humilhava. Ele era o pesadelo de rubro-negros, tricolores e alvinegros. Uma hegemonia que ficou marcada para sempre na história do futebol carioca.
A carreira dessa lenda terminou em 1957, um ano após deixar o Vasco. Ele retornou ao Sport, clube que o revelou, para encerrar sua jornada. Uma lesão no pé antecipou sua aposentadoria aos 34 anos. Seu último jogo foi um amistoso entre Sport e Bahia, em 10 de março de 1957. Ademir partiu, mas deixou um legado eterno. Um legado de raça, gols e, acima de tudo, de um amor pela Cruz de Malta que ele considerava maior até que a glória de uma Copa do Mundo. Que sirva de inspiração, hoje e sempre. Vasco é coisa séria!
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.