Tem dias que ser vascaíno é um teste de resistência. E este domingo foi um desses. Em pleno Caldeirão de São Januário, o que deveria ser uma festa se transformou em um funeral. O Vasco da Gama não apenas perdeu para o Bragantino pela 17ª rodada do Brasileirão, foi humilhado. Um 3 a 0 que dói na alma, mas que, para ser sincero, nem surpreende mais. A surpresa, talvez, tenha sido um jogador ter a coragem de botar a cara para bater e falar o que todo torcedor estava engasgado para gritar.
Esse jogador foi Thiago Mendes. Enquanto muitos talvez buscassem desculpas esfarrapadas, o volante, em entrevista ao canal “Sportv” logo após o apito final, não mediu palavras. Ele resumiu o sentimento de milhões de cruzmaltinos com uma honestidade brutal. Foi um desabafo necessário, um soco na mesa que ecoou mais forte que qualquer vaia.
‘Nosso time não veio para o jogo’: A bronca de um Guerreiro
As palavras de Thiago Mendes precisam ser lidas e relidas por cada um que veste essa camisa sagrada. Questionado sobre a partida, ele foi direto ao ponto, sem rodeios. A verdade nua e crua.
“Na verdade, é falar o que não aconteceu. Acho que nosso time não veio para o jogo. Resumindo é isso. Acho que nosso time não jogou. Hoje foi um resultado vergonhoso”, disparou o volante. A palavra “vergonhoso” resume tudo. É o que sentimos nas arquibancadas, no sofá de casa, em cada canto do Brasil onde bate um coração com a Cruz de Malta.
A frustração pessoal do jogador era visível, e isso, de certa forma, nos conecta a ele. Ele sente a dor da derrota como nós. “Estou bastante chateado pelo resultado. Não esperava ter perdido em casa diante do nosso torcedor. Isso é frustrante para mim, pessoalmente, que sempre dou minha vida dentro de campo”, completou. É o mínimo que se espera, Thiago. Que a sua frustração contamine o vestiário e se transforme em raça no próximo jogo.
Um primeiro tempo de dar sono (e muita raiva)
A análise do jogo é um filme de terror que já vimos antes. O Gigante da Colina parecia um time amador, perdido em campo. Fisicamente abaixo, tecnicamente limitado, o Vasco foi um mero espectador do passeio do Bragantino em nossa própria casa. Era um domínio constrangedor. O time paulista trocava passes, criava chances e só não abriu o placar antes porque temos um santo chamado Léo Jardim no gol, que operou milagres até onde pôde.
Mas milagre tem limite. Aos 46 minutos do primeiro tempo, a porteira se abriu. Rodriguinho, com uma liberdade que não se dá nem em treino, conduziu a bola como quis e soltou um chutaço de fora da área. Um gol que foi a crônica de uma morte anunciada. A bola no fundo da rede foi o estopim para a torcida, que, com toda a razão, mandou o time para o vestiário debaixo de uma sonora vaia. O alvo principal dos xingamentos foi o lateral Lucas Piton, personificando a apatia de uma equipe inteira.
O vexame se confirma no Caldeirão
Se alguém esperava uma reação no segundo tempo, uma mudança de postura sob o comando de Renato Gaúcho, a esperança durou pouco. Logo aos 5 minutos, o Bragantino carimbou a nossa trave, de novo com Rodriguinho. Um aviso de que o pior ainda estava por vir.
O destino até tentou nos dar uma chance. Pouco depois, Spinelli teve a bola do empate, mas finalizou para fora, num lance que já se tornou um triste costume. E como diz o ditado, quem não faz, leva. Aos 15 minutos, a defesa voltou a bater cabeça e Isidro Pitta, livre na pequena área, só teve o trabalho de chapar para o gol. 2 a 0. O silêncio em São Januário era ensurdecedor.
Depois disso, o time até esboçou uma reação desesperada. Tivemos duas chances claríssimas, inacreditáveis, com Spinelli e Brenner, ambos na cara do gol. E ambos desperdiçaram. É a falta de capricho, a falta de concentração que define nosso momento. Para completar a tarde melancólica, o Bragantino ainda teve um pênalti a seu favor nos minutos finais, mas Eduardo Sasha, talvez com pena, isolou a cobrança. No placar final, um 3 a 0 que reflete perfeitamente a superioridade do adversário e a nossa impotência.
E agora, Almirante?
A derrota é mais do que um resultado negativo. É um alerta vermelho piscando em São Januário. A atuação foi pífia, apática e desrespeitosa com a nossa história e com o povo cruzmaltino que nunca abandona. Nem mesmo a justa homenagem ao ídolo Geovani antes do jogo serviu para inspirar os jogadores em campo.
As palavras de Thiago Mendes são um raio de lucidez no meio do caos. Ele expôs a ferida. Agora, cabe ao elenco e à comissão técnica de Renato Gaúcho estancar o sangramento. Não há mais tempo para desculpas. O que a torcida vascaína exige é o básico: honra, luta e respeito pela camisa que vestem. Que a vergonha de hoje se transforme no combustível para a volta por cima. Porque nós, da arquibancada, continuaremos aqui. Sempre estivemos e sempre estaremos. Mas está na hora do time jogar por nós. Vasco é coisa séria.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.